sábado, 30 de setembro de 2006

Você Decide!

Hoje levantei cedo, pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia-noite.
Minha função é escolher que tipo de dia vou ter hoje.
Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a rua.
Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício.
Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo.
Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou
posso ser grato por ter nascido.
Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho.
Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus por ter um teto que abrigue minha família e meus pertences.
Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades.
Se as coisas não saíram como planejei ontem, posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar.
O dia está à minha frente, esperando para ser o que eu quiser.
E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma ao meu dia e ao mundo, no que depende só de mim.

A Evolução da Forma

Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original.
As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.
Enquanto a fonte é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos
dois se detém?
A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.
Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti,
para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti?
Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo; um punhado de pó
vê quão perfeito se tornou!
Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.
Passa de novo pela vida angelical,
entra naquele oceano
e que tua gota se torne o mar
cem vezes maior que o Mar de Oman.
Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre Um; com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.

Jalal ud-Din Rumi
Poeta e místico sufi do século XIII (Poemas Místicos, Ed. Attar, 1996)

Crônica de um dia (in)feliz - by Mah

“Buscai a razão e a fé, pois, será somente
desta forma que compreendereis a importância
de saber chorar sorrindo e a de sorrir chorando.”

Há momentos em nossa vida em que tudo parece estar se despedaçando, que estamos caindo num poço profundo e escuro e que ninguém pode nos ajudar.

Meu amigo estacionou o carro e foi pagar uma conta. Me sugeriu que ficasse no carro, porque não ia demorar. Estava muito quente, mas como na calçada não havia sombra, achei melhor, mesmo. De relance vi uma pessoa “estacionada” na calçada ao lado do carro. Parecia um pedinte. Olhei para o meu amigo e cochichei que talvez fosse melhor ir junto. Ele olhou pro lado e disse: “Não demoro, fique com a chave do carro.”

A vida é feita de minutos e de decisões. Peguei a chave, joguei minha bolsa nos meus pés e fiquei por ali, mesmo.

Fazia dias que estava tendo intuições de coisas ruins, acompanhadas de pensamentos negros: Pra quê continuar vivendo; Qual o sentido de tudo? E, nesse momento, pensei, que seja o que Deus quiser, que diferença faz...

Pus o braço na lateral do carro, segurando a cabeça com a mão, mas na verdade, tentando esconder minha face, pra evitar contato visual.

De repente ouvi uma voz bem-humorada falando: ”As pessoas não sabem o que querem, quando está calor reclamam; quando está frio, reclamam também.”

“Está com dor de cabeça?” Então me toquei que era comigo e pensei “Ignoro?”, mas aquele tom de voz da pergunta me obrigou a olhar para o lado e responder: “Não, é o calor. Minha pressão deve estar baixa...”

“Imagine minha mãe que tem diabetes, como ela sofre...” respondeu ele. E neste momento, olhei realmente para o ser humano sentado na calçada, que comia prazeirosamente - com a mão – alguma coisa dentro de um marmitex.
E ele, entre uma “mãozada” e outra, continuou a disparar palavras na minha direção que foram me deixando desarmada, porque vinham sempre acompanhadas de um sorriso desdentado:

“O negócio é beber muita água. Não refrigerante, porque não mata a sede, mas muita, muita água. Eu gosto muito de água, bebo muita água e por isso não fico doente. Entendo muito de água, porque o meu signo é de água.”

Qual é seu signo? perguntei, curiosa.

Peixes”, ele disse. E, em seguida, levantou-se, fechou a marmita, colocou numa sacola. E disse: “Deus ajude...” Eu, automaticamente, respondi: “Ele ajuda...”.

Nesse instante vi que pegava um carrinho de madeira (cheio de papelão dentro) - que não havia reparado estar ao seu lado - e seguiu seu rumo. Lá adiante, alguém jogou uma latinha de refrigerante e ele pegou no ar, brincando, como quem joga futebol.

A minha vontade foi de chorar e rir ao mesmo tempo.

Era um misto de tristeza por desconfiar dos seres humanos, por estar num estado em que desacreditava que houvesse gentileza, desinteresse, preocupação de um com o outro, enfim essas coisas que fazem a gente ter porquê viver. E de alegria, porque senti como um presente divino. (Para quem conhece astrologia, Peixes é o signo da conexão com o Cosmo, com Deus).

Por quê nos deixamos cair nesse estado? Por quê algumas pessoas, apesar de tudo, não permitem que a vida as endureça, as derrube do projeto original que é a felicidade interior?

A cena da boca sem dentes, rindo vai ficar eternamente gravada na minha memória... Gostaria que mais alguém tivesse visto...

A resposta para a felicidade estaria naquele carrinho? Talvez deva adquirir um...

Ou quem sabe, deva extrair meus dentes (que minha dentista não me ouça...).